Andebol: A Técnica e a Tática na Deficiência Intelectual

O jogo de andebol para a Deficiência Intelectual (DI) atingiu, em poucos anos, um elevado motivo de interesse quando jogado ao mais alto nível. Os três Campeonatos da Europa INAS já realizados, e o aumento crescente do número de praticantes um pouco por todo o mundo comprovam toda a atenção e visibilidade que este fenómeno faz por merecer. Esta atmosfera favorável ao desenvolvimento do Andebol para a DI contrasta com a ausência de estudos neste domínio, pois nada se conhece sobre os perfis técnicos dos atletas e a sua performance em jogo, bem como questões acerca da sua capacidade adaptativa face às exigências do jogo e da competição.

Muitos atletas com DI, sobretudo aqueles que evidenciam maior rendimento desportivo, não apresentam marcas visíveis que os distinguem dos atletas ditos «normais» (AN). Todavia, as suas limitações intelectuais condicionam o seu comportamento adaptativo, com repercussões nas suas condutas desportivas (INAS, 2019).

Silva (2004), num estudo comparativo entre atletas com DI e AN na modalidade de Basquetebol, concluiu que se confirma a existência de perfis técnicos e técnico-tácticos diferenciados para os dois grupos de atletas em estudo. A qualidade inferior dos perfis técnicos e técnico-táticos dos atletas com DI ganham maior expressão face a contextos competitivos mais evoluídos que, por sua vez, evidenciam as limitações psicomotoras que caracterizam este tipo de atletas.

Também para Silva (2004) e para Burns (2015), o grau de diferenciação encontrado, poderá estar marcado por algum efeito particular atribuível, entre outros factores, à quantidade e à qualidade do treino a que estes atletas estão sujeitos. De facto, a investigação sugere que as pessoas com DI podem atingir melhores resultados do ponto de vista motor desde que a frequência e as condições de prática sejam ajustadas às suas características individuais. Assim sendo, os mesmos autores crêem que um maior apoio às condições de treino a este grupo de indivíduos poderá diminuir a distância que os separa dos AN.

O que nunca ninguém comprovou ao nível do treino é a especificidade que deve haver quando se trata do trabalho com atletas com DI. De facto não existe uma forma específica de trabalhar os aspetos técnicos e táticos de jogo neste tipo de população. O processo de treino na DI é igual ao dos AN. O treinador deve ter a capacidade de perceber quem tem à sua frente, que perfil de atletas compõe o seu grupo de trabalho e ser capaz de adaptar os conceitos técnicos e táticos do jogo de forma a produzir efeitos evolutivos nos seus atletas. Selecionar o tipo de exercícios que deve trabalhar, sendo estes os mesmos utilizados por atletas do andebol regular, adaptados a esta realidade, assim como se adaptam estes mesmos exercícios quando se trabalha, por exemplo, com jovens em formação (Oliveira, 1995).

Na minha ótica, dependendo do tipo de perfil de atletas que compõe um grupo de trabalho, os conteúdos abordados devem ser os seguintes (adaptado de Pereira, 2015):

  • Jogadores com DI severa a moderada
    • Características:
      1. Pouca habilidade / capacidade motora
      2. Grandes problemas de coordenação motora
      3. Baixa capacidade de compreensão
    • Conteúdos:
      1. Exercícios de Coordenação (de preferência sempre com bola)
      2. Trabalho analítico simplificado
      3. Jogos lúdicos
    • Objetivos específicos:
      1. Recreação
      2. Ludismo
      3. Pré-Competição
  • Jogadores com DI ligeira
    • Características:
      1. Boas a excelentes capacidades motoras
      2. Alguns a poucos problemas de coordenação motora
      3. Boa capacidade de compreensão
    • Conteúdos:
      1. Exercícios de Coordenação (de preferência sempre com bola)
      2. Trabalho técnico-tático
      3. Jogos Pré-Desportivos
      4. Jogos Formais
    • Objetivo específico:
      1. Competição

O que acontece na maioria dos grupos de trabalho neste âmbito do andebol adaptado, é o facto de serem muito heterogéneos, existindo jogadores de ambos os perfis traçados nos pontos a) e b). Cabe ao treinador encontrar formas de trabalho que respondam às necessidades específicas dos seus jogadores de forma a respeitar a evolução mais lenta de uns e a evolução mais progressiva de outros.

Segundo Fontinha (2003), deve considerar-se que as consequências da participação desportiva ao mais alto nível destes atletas, implica a especialização de competências físicas, técnicas, táticas e psicológicas. No domínio da expertise desportiva, o fator cognitivo tem sido apontado como um dos marcadores da diferença de nível dos praticantes.

Em resumo, é notório na literatura disponível, a ausência de estudos em populações com DI praticantes de Andebol e, deste modo, são completamente desconhecidos os perfis técnico-tácticos destes atletas, avaliados em contextos analíticos e em situação de jogo, no entanto, deixo, através deste artigo, um pequeno contributo com a minha experiência pessoal e aquilo que acredito ser, possíveis formas de trabalho técnico e tático em praticantes de andebol com DI.

Ainda assim, será a sua capacidade cognitiva (escolha de resposta adequada e consequente tomada de decisão) suficiente para a estruturação tática como é referido por Tavares (1993), ou limitadora e/ou condicionante de forma a reduzir-lhes a sua capacidade de execução, inviabilizando ou diminuindo um rendimento otimizado, como sustenta Rink et al. (1996)?

Referências Bibliográficas:

Burns, J. (2015). Sport Coaching and Intellectual Disability. In: Adapted physical activity quarterly: 32, 177-178 (Artigo).

Fontinha, L. (2003). Conhecimento Declarativo em Futebol: Estudo comparativo em praticantes das Seleções Nacionais de Futebol 11 com Deficiência Intelectual Ligeira INAS-FID, no Campeonato do Mundo Japão 2002. Dissertação apresentada às provas de Mestrado em Ciências do Desporto na área de especialização em Actividade Física Adaptada. Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física – Universidade do Porto.

Oliveira, F. (1995). Ensinar o Andebol. Colecção: Campo do Desporto – 4. Porto: Campo das Letras.

Pereira, A. (2015). Andebol para a Deficiência Intelectual. In: Seminário “Novas Tendências no Desporto para a Deficiência Intelectual”. Faculdade de Desporto da Universidade de Porto (Documento não publicado).

Rink, J.; French, K. e Teerdsma, B. (1996): Foundations for the Learning and Instruction of Sport and Games. Journal of Teaching in Physical Education, 15: 399 – 417.

Silva, J. (2004). A Avaliação Analítica da Técnica e da Performance no Jogo de Basquetebol: Um estudo comparativo entre atletas com e sem deficiência mental. Dissertação apresentada às provas de Mestrado em Ciências do Desporto na área de especialização em Actividade Física Adaptada. Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física – Universidade do Porto.

Tavares, F. (1993). A capacidade de decisão táctica no jogador de Basquetebol. Estudo comparativo dos processos perceptivo-cognitivos em jogadores seniores e cadetes. Dissertação de Doutoramento. Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física – Universidade do Porto

The International Sports Federation for Athletes With Intellectual Impairments. (2019). About intellectual impairment. [On-line]: https://inas.org/about-us/athlete-eligibility/promoting-sport-and-competition

Antonio Costa Pereira
Maestría en Ciencias en educación física y deportes
Director técnico de ANDDI-Portugal
Técnico Nacional de Balonmano-ANDDI-Portugal
Antonio.Pereira@anddi.pt

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